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Como trabalhar o Dia da Consciência Negra na escola



No dia 20 de novembro é comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. A data é uma referência à morte de Zumbi dos Palmares um dos mais importantes líderes quilombolas brasileiros, figura fundamental na luta do povo negro por libertação durante a escravidão.


Convidamos nossa assessora pedagógica, Profa Ma. Isadora Roncarelli para nos contar como esta data afeta o cotidiano escolar e de que forma pode ser trabalhada nas escolas. Boa leitura!

Por mais de 300 anos o povo negro foi escravizado em nosso país. Os colonizadores, na época das grandes navegações, migravam da Europa para as Américas a fim de explorar as riquezas do território, além de expandir suas terras de domínio.


No Brasil, os primeiros colonizadores vieram de Portugal e da Espanha, trazendo consigo centenas de negros escravizados para trabalhar no país, que na época ainda era colônia.


Os povos negros, retirados de forma violenta especialmente do continente Africano, trouxeram consigo línguas, costumes, crenças religiosas, culinária, culturas e desenvolvimento agrícola e tecnológico próprios.


Muitos destes aspectos, como as crenças religiosas, por exemplo, foram reprimidas pelos colonizadores, que catequizavam os escravizados e os obrigavam a abandonar seus antigos costumes.


Mesmo após a abolição da escravatura, muitas marcas deste período ficaram na história e cultura do nosso país. Ainda que muito de nosso desenvolvimento econômico, industrial, agrícola e cultural tenha ocorrido por conta das contribuições do povo negro, essa história é negligenciada.


O papel da escola, portanto, é valorizar estas contribuições e rever a forma de abordar a temática com os(as) estudantes.


A Lei nº 11.645, de 10 março de 2008 torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nas escolas de Educação Básica. O tema precisa ser abordado ao longo do ano letivo de forma transversal ao currículo escolar, ou seja, compondo projetos ou unidades temáticas em todas as disciplinas cursadas pelas crianças e estudantes.


Ainda que a legislação esteja em vigor há 14 anos no Brasil, muitas escolas ainda não incorporaram o estudo em seu cotidiano, o que demonstra o quanto o racismo estrutural ainda faz parte de nossa cultura: valorizamos a história e a contribuição dos colonizadores, mas negligenciamos a história do povo negro e dos indígenas, fundamental na nossa constituição enquanto sociedade.


Quando refletimos sobre estes aspectos de nossa história, conseguimos perceber a necessidade de readequarmos nossas práticas pedagógicas. Mais do que ensinar sobre a história do povo preto na escola (que é fundamental e necessária), devemos buscar ações de construirmos uma educação antirracista.


Problematizar assuntos do dia a dia das crianças, que se relacionam com a temática, é essencial para que o tema esteja presente na vida dos(as) estudantes desde a primeira infância.


Há ações cotidianas, formas de sensibilização e propostas de atividades que podem ser trabalhadas o ano inteiro. Veja alguns exemplos:


- Com as crianças pequenas, busque por referências em histórias infantis, animações e filmes. É sempre importante que as crianças pretas possam se sentir representadas como protagonistas, tanto na dimensão cultural como no seu cotidiano.

Por isso, busque por alternativas de filmes e histórias com personagens não brancos.


Alguns livros que podem ser apresentados são:

  • Meu crespo é de rainha – Bell Hooks;

  • Histórias da África – Gcina Mhlophe;

  • O black power de Akin – Kiusam de Oliveira;

  • Menina bonita do laço de fita – Ana Maria Machado;

  • Amoras – Emicida;

  • Flora – Bartolomeu Campos de Queirós;

  • As tranças de Bintou – Sylviane A. Diuof;

  • Obax – André Neves.

Filmes e animações:

  • A Princesa e o Sapo;

  • Zarafa;

  • Doutora Brinquedos;

  • Cada um na sua casa;

  • Moana, um mar de aventuras;

  • Lilo e Stitch;


Outra opção bastante interessante e que pode ser abordada de diferentes formas por estudantes de diversas idades é o Curta Metragem “Dudu e o lápis cor da pele” (Direção: Miguel Rodrigues, 2018), disponível no YouTube.


A história vivida por Dudu é bastante comum em diversas escolas do país e pode ser uma forma de sensibilizar crianças e adolescentes sobre o tema, pensando em ações cotidianas que podemos adotar para modificar padrões racistas e excludentes presentes em nosso dia a dia.

Além de trabalhar com livros, filmes e animações, é possível explorar o tema em diversas áreas, de forma interdisciplinar, adaptando as propostas de acordo com a faixa etária e com os objetivos de aprendizagem de cada turma. Veja algumas opções:


Língua Portuguesa:

  • É possível mapear e explorar palavras em nossa língua que são oriundas de expressões indígenas ou africanas;

  • Propor a leitura de diferentes textos que abordem a temática, com gêneros textuais diversos (notícias, textos narrativos, músicas, poesias, cordéis...);

  • Produzir textos diversos destacando as contribuições do povo negro na história e cultura do nosso país;

  • Roteirizar e gravar Vlogs ou Curtas sobre o tema, a partir de livros ou mesmo das discussões realizadas em sala de aula.


Arte:

  • Pesquisas que valorizem artistas pretos ao longo da história: nas artes plásticas, na música, na dança, no teatro...

  • Obras e representações da figura humana em diferentes épocas e através de diferentes pontos de vista;

  • A importância do Samba, da MPB, do Funk, do Rap e da cultura Hip-Hop na história das periferias brasileiras, valorizando a cultura preta e discutindo suas contribuições para a arte brasileira.


Matemática:

  • O trabalho com dados estatísticos e gráficos reais sobre desigualdade social, distribuição de renda e acesso aos bens sociais e de consumo podem ser vinculados com a temática, trazendo também a relação com História e Geografia;

  • Pode-se realizar pesquisas sobre as diferentes formas de utilização da matemática, buscando a história dos povos originários da África e sua relação com a construção do número e uso da geometria.


Ciências da Natureza:

  • Pode-se realizar pesquisas sobre as contribuições de pesquisadores e cientistas pretos nas descobertas da área, problematizando as suas presenças nos livros e na história das ciências;

  • Discutir aspectos genéticos relacionados à melanina e localização espacial, relacionando com a presença dos povos em diferentes partes do mundo, ao longo dos anos.


Ciências Humanas

  • Em História e Geografia há diversas formas de abordar a temática. É possível dialogar sobre a história dos diferentes povos africanos que foram trazidos ao Brasil;

  • Discutir aspectos culturais e sociais dos povos pretos, relacionando a história com a ocupação territorial do Brasil – como as desigualdades atuais se relacionam com a opressão destes povos ao longo dos anos?

  • Criar alternativas e possibilidade de combate às desigualdades com o desenvolvimento de propostas de políticas públicas.


Educação Física:

  • História e valorização da Capoeira como manifestação cultural brasileira;

  • Dança Afro – é possível fazer pesquisas, assistir e organizar apresentações que valorizem as danças de origem africana.


Além destas sugestões há diversas outras possibilidades de iniciar o diálogo sobre a temática e desenvolver projetos de educação antirracista na escola.


Lembre que o mais importante é incorporar as práticas no dia a dia, de forma que sejam trabalhadas o ano inteiro e não somente em novembro.


Lutar por uma educação para todos e sobre todos é dever da escola e papel dos(as) educadores(as).

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