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Que infância é essa? Possibilidades, desafios e potencialidades



Quando o assunto é infância muitos têm a dizer, sejam nos conceitos básicos de desenvolvimento, nas leituras teórico-pedagógicas ou psicológicas, na empiria familiar, mas algo propagado no senso comum é a importância que devemos dar dos 0 aos 7 anos. Mesmo não sendo histórica esta preocupação, conforme nos cita Philippe Ariés, em seu livro “A História Social da Criança e da família”, o entendimento da importância de uma infância bem vivida é objeto de estudos de diversas áreas na contemporaneidade.


Etimologicamente, a palavra "infância" tem origem no latim infantia, do verbo fari = falar, onde fan = falante e in constitui a negação do verbo. Portanto, infans refere-se ao indivíduo que ainda não é capaz de falar. E, quando percorremos as infâncias da antiguidade, e neste caso, mesmo há pouco tempo, percebemos que o espaço da fala infantil e da escuta adulta não eram vividos. Ao contrário, ouvíamos: “criança não fala”, “quando chegar as visitas, vão brincar em outro lugar para não incomodar”, entre tantas outras citações que descrevem como esta infância foi vista no decorrer dos tempos. A grande preocupação que temos vivenciado na educação deste momento é que professores e pais que foram silenciados nas suas infâncias, que não se sentiam potentes para serem ouvidos, respeitados ou acolhidos em suas individualidades e emoções, estão em crise por não saber lidar com as infâncias que estão emergindo. Seja por superestimulação visual e auditiva, tanto quanto a tecnológica, as crianças querem e precisam falar, querem e precisam se manifestar e temos encontrado crianças que nos ensinam: “não precisa gritar, você pode falar que eu ouço”.


Estes e milhões de exemplos que temos ouvidos, são frutos de uma possibilidade de uma educação do ser e não somente do saber, que tem levado em conta cada ser humano integralmente, que tem nos convidado a repensar o protagonismo infantil. Por que antigamente nossa opinião não era levada em conta? – criança não sabe de nada... Por que as dores, medos e mágoas das crianças não eram levados em conta? – engole esse choro, parece de açúcar! Por que não havia condição de escolha? Silêncio, aqui quem manda sou eu. Não devemos nos focar no que não aconteceu, ou no porque aconteceu, visto que as ferramentas culturais da época bem como a organização social das famílias e escolas é que talhavam a educação. Devemos é nos propormos a repensar estas infâncias e a relação delas conosco, que não fomos e nem sentimos assim. Não existe uma receita de como devemos proceder, pensamos que o equilíbrio é sempre bemvindo, não são mais seres que não falam, também não são super seres que podem tudo. São crianças, que neste momento histórico, social e vivencial podem falar, podem ser ouvidas com sensibilidade, podem ser vistas com atenção, podem ser sentidas em toda sua condição. Desejamos que os adultos (famílias e professores) revisitem suas infâncias, cuidem das crianças que foram com direito a ataduras e perdões pelas dores que passaram e; a partir daí; possam olha de forma diferente para as crianças que têm, para suas possibilidades, vivenciando os desafios e reinventando a educação.


ARIÈS, Philippe. História social da infância e da família. Tradução: D. Flaksman. Rio de Janeiro: LCT, 1978.

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