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Como integrar (de verdade) o aluno com autismo em sala de aula


O número de alunos com transtorno do espectro autista (chamado de TEA) matriculados em classes comuns no Brasil aumentou 37,27% no ano passado. Em 2017, 77.102 crianças e adolescentes com autismo estudavam na mesma sala que crianças sem deficiência. Esse índice subiu para 105.842 alunos em 2018 (dados do Censo Escolar, divulgado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Inep).


O número de matrículas aumentou, ou seja, as escolas, tanto públicas quanto privadas, deram um passo em direção à inclusão. Mas como garantir que os alunos autistas sejam realmente integrados nas atividades da sala de aula? Para responder isso, conversamos com Ana Cristina Fadanelli, pedagoga, especialista em Educação Especial e assessora da Educação Especial da 4ª CRE – Coordenadoria Regional de Educação. Confira:


Por que é tão difícil integrar os alunos com autismo em sala de aula?

Existem vários fatores que dificultam a inclusão das crianças com deficiência, principalmente o autismo. Além das questões específicas de cada criança (nenhum autista é igual ao outro), ainda existe muita resistência ao desconhecido, desta forma, os profissionais que vão atuar com essas crianças necessitam, em primeiro lugar, deixar o diagnóstico de lado e conhecer realmente a criança que está em sua frente, vendo suas potencialidades e respeitando suas limitações. Não é a criança que precisa se adequar à escola e sim a escola que precisa se adequar à criança. Com um exemplo muito prático: se a instituição vai receber um aluno de cadeira de rodas, se faz necessária adequação estrutural para tal; se o aluno é cego, se faz necessário material em BRAILE (entre outros); mas quando a deficiência é cognitiva ou comportamental, como no caso do autismo, temos a tendência a não respeitar as limitações dessas crianças. Eu costumo dizer que quando a deficiência não é visível, a gente tem mais dificuldade em aceitar ela, é mais complicado aceitar. O Transtorno do Espectro Autista/TEA, é um transtorno neurológico caracterizado por comprometimento de áreas muito importantes, interação social, comunicação  e comportamento restrito e repetitivo, ou seja, não é uma deficiência muito visível. Dessa forma, são inúmeras as peculiaridades de cada criança com autismo e elas precisam ser respeitadas. O autismo é um dos diagnósticos mais complicados para se trabalhar em sala de aula, mas ao mesmo tempo um dos mais fascinantes, porque desafia o professor, toda hora mexendo com o profissional, com a expectativa de aprendizado, já que às vezes não dá o retorno esperado e em outras dá retorno muito maior do que o que se imagina.


Quais os maiores desafios?

Em 13 anos de trabalho dentro da Educação Especial, vejo o preconceito, causado pela falta de conhecimento, como o maior desafio. Na Lei Brasileira de Inclusão/LBI, encontramos diversas barreiras a serem transpostas, mas a mais difícil ainda é a Barreira Atitudinal, pois esta mexe com nossas emoções e atitudes arraigadas em uma sociedade excludente. Ela depende de mudarmos nossas atitudes, nossos conceitos, nosso fazer pedagógico e isso tudo gera trabalho, gera insegurança e desconforto. Por isso às vezes é mais fácil dizer ‘não sei lidar’, do que tentar lidar. Temos que deixar de ver a pessoa com deficiência como um “coitadinho” e tratá-lo como cidadão, com direitos e deveres. É preciso dar amor, mas também limites.


Os professores, no geral, estão preparados para isso? O que eles podem fazer para conseguir lidar melhor com essas diferenças?

Ninguém está suficientemente preparado para lidar com uma criança especial, nem mesmo os pais, pois eles não tiverem orientação prévia de como cuidar do seu filho autista, vão aprendendo no dia a dia, com erros e acertos. Com o professor ocorre a mesma situação, portanto, sugere-se, além de estudar sobre as deficiências (hoje em dia, temos muitas ferramentas para isso), uma conversa com a família para conhecer o indivíduo, saber o que ele gosta, o que ele já consegue fazer, quais os fatores que podem desorganizá-lo, como os pais procedem em momentos  de crise e o que a desencadeia, entre outros. Desta forma, não estaremos trabalhando o diagnóstico, e sim o ser humano que está em nossa frente. Como já mencionei, é preciso sair da zona de conforto, desconstruir conceitos e rever estratégias, para garantir o bom andamento de toda a turma, não só de um aluno específico.


Como integrar os alunos com autismo nas atividades da sala de aula?

Ao preparar a aula, precisamos pensar no que vai ser bom e funcionar para todos. Para que haja uma real inclusão, muitas vezes se faz necessário flexibilizar as atividades propostas para a turma, ou seja, adequar as possibilidades do aluno com autismo. Em outros momentos, as atividades podem ser flexibilizadas para toda a turma, fazendo com que haja a participação de todos, um auxiliando o outro. Sabemos que na Educação Infantil, o uso do material concreto se faz mais presente, e esta é uma ferramenta importantíssima para o desenvolvimento do autista, porque ele precisa do concreto, tendo em vista que o poder de abstração, em muitos casos não existe. Os problemas para os autistas, em sala de aula, costumam aparecer mais no Ensino Fundamental e Médio, não tanto na Educação Infantil. Mas claro que mesmo na Infantil as atividades, dependendo da criança, precisam ser adaptadas: às vezes precisam ser reduzidas, alguns não têm tolerância de tempo, de alguns barulhos, isso tudo pode desestruturar. O próprio barulho do reator da fluorescente da sala de aula às vezes pode incomodar essa criança e se ela estiver incomodada vão aparecer questões comportamentais e vai impactar e dificultar a aula e toda a sala. Por isso é importante conhecer a criança. As crianças não veem a diferença, elas respeitam a diferença, nós adultos que temos esse preconceito. Então quanto mais normal a gente trabalhar em sala de aula melhor a todos. Traga os coleguinhas para auxiliar essa criança. A turma também precisa entender para respeitar o coleguinha. Só na base do respeito teremos uma inclusão real.

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